Vibe Coding — Uma Reflexão Pessoal

Nos últimos meses tenho desenvolvido um projeto pessoal utilizando IA. Tenho um pouco de conhecimento de programação — afinal, já fui programador Java no início da carreira. Conheço os fundamentos principais, tenho noções de arquitetura de software, conceitos abstratos, essas coisas. Mas hoje sou DevOps. Ainda desenvolvo, mas não mais as regras de negócio de um software, não mais as queries SQL complexas, e nunca desenvolvi frontend na vida. Só o básico.
TypeScript no front e Golang no backend — as linguagens que escolhi para o projeto. Posso dizer que conheço um pouco, que sei ler, analisar. Mas não codar de verdade, não conhecer as nuances das linguagens.
Para esse projeto estou utilizando IA. É o famoso Vibe Coding.
Vibe Coding com Controle
Obviamente não posso deixar a IA correr solta, senão fica insustentável de manter. Adotei algumas estratégias que estão ajudando muito e o projeto está progredindo rapidamente.
Preciso controlar muito o que a IA está fazendo. Questionar tudo. Jogar problemas: "E se isso acontecer? E se aquilo? Como vai resolver isso? Por que não assim? Por que não assado? E a performance disso? E se escalar?"
Para ajudar no processo, estou também usando o SonarQube para analisar sempre a qualidade do código escrito — e realmente está sendo um sucesso. Foco mais em pensar no design dos modelos, no negócio, em como eu quero que funcione. Faço perguntas sobre performance, se vale a pena ou não, até chegar sempre em algo que eu acho digno de manter.
Basicamente, estou fazendo o trabalho de 5 pessoas: PO, Frontend, Backend, DBA e DevOps.
O Sentimento Contraditório
Apesar de tudo estar correndo bem, sinto que estou no controle. O projeto é meu. A ideia é minha. As decisões são minhas.
Mas não sinto que conheço completamente o que construí.
É um sentimento bom e ruim ao mesmo tempo.
Todo dia que sento na máquina para desenvolver um pouco mais, finalizo algo que talvez demoraria uma semana para fazer. Em três horas. É bom demais, não vou mentir.
Mas é como se eu estivesse dirigindo um carro que montei sem conhecer todas as peças do motor, sem saber se os parafusos estão bem apertados.
O carro é meu. Eu que projetei. Eu que decidi a cor, o modelo, a potência. Mas as mãos que montaram não foram as minhas — então não conheço tudo como gostaria.
Por mais que você mande apertar o parafuso, será que apertou mesmo? Você confia no mecânico. Você até verificou depois. Mas aquela dúvida persiste: será que está realmente firme?
Às vezes é apenas necessário confiar. E é exatamente isso que me dá medo.
A Conversa Que Me Fez Escrever Isso
Expliquei para um amigo sobre esse sentimento. Sobre essa sensação estranha de conquista incompleta. E ainda adicionei: parece que não ganhei mais conhecimento.
Na verdade eu ganhei. Aprendi mais sobre Go, sobre TypeScript, sobre arquitetura de sistemas. Mas claro que não é o mesmo que se eu tivesse desenvolvido tudo sozinho. Não é o mesmo tipo de aprendizado.
Quando você escreve cada linha, você erra, você debugga, você sofre, você entende. Quando a IA escreve e você revisa, você entende — mas não da mesma forma. É um entendimento mais superficial, mais conceitual, menos visceral.
Daí meu amigo me fez uma pergunta: "Se você pegar um projeto que fez há 5 anos, você lembra de tudo?"
E isso me fez refletir. É lógico que não. Se eu pegar esse projeto de novo, vou ter que estudar tudo novamente. Reler o código, entender as decisões, lembrar por que fiz daquele jeito.
O Que Precisamos Entender
Não dá para nadar contra a corrente. Se não consegue vencê-la, junte-se a ela.
Vibe coding veio pra ficar. Nos emburrece? Talvez. Cria dependência? Com certeza. Mas será que não é assim mesmo que as coisas serão feitas no futuro?
Estou começando a duvidar que existirão programadores raiz de verdade daqui a alguns anos. Talvez só aqueles que mantêm as linguagens, os compiladores, os frameworks. O resto — e isso inclui a maioria de nós — vai estar no mesmo barco.
Será uma ferramenta necessária para trabalhar. Ponto.
Pensa comigo: se o seu colega que usa IA entrega algo funcional em uma hora, e você precisa de um dia para fazer a mesma coisa, quem a empresa vai preferir? Ele resolve. Ou conhece quem resolve.
Me lembrei de uma frase que li há bastante tempo: "Não precisamos saber tudo. Precisamos apenas saber onde encontrar o que precisamos."
Talvez essa frase nunca tenha feito tanto sentido quanto agora.
E Agora?
Continuo usando IA para desenvolver. Continuo impressionado com a produtividade. Continuo com esse sentimento estranho de que algo não está completo.
Mas pensando bem — se fosse outra pessoa que tivesse escrito o código, eu também duvidaria. Então segue o fluxo.
Talvez seja o preço da eficiência. Talvez seja algo que a gente vai aprender a lidar com o tempo. Talvez eu esteja apenas sendo exigente demais comigo mesmo.
Ou talvez esse incômodo seja exatamente o que me mantém atento — questionando, validando, garantindo que os parafusos estão apertados.
Porque no final, o carro está andando. E está andando bem.
Só não sei se eu saberia montá-lo de novo sozinho. E talvez isso esteja tudo bem.